quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O tamanho do buraco.

As vezes a gente so' consegue perceber o tamanho do buraco quando esta' dentro dele.

Hoje faz duas semanas que nos chegamos em Curitiba. Foram muitas emocoes, muitos sentimentos misturados - um que de "nossa quanta novidade" com "ai que saudade da minha casinha"- muito calor, muito sol, muita luz, muita gente, muitos abracos, muitos beijos, muita comida, muito barulho e de repente frio, chuva, raios, trovoes e muita chuva mesmo.

Chegamos em Curitiba e dias depois fomos para Sao Paulo por quatro dias so'. E ha' uma semana, quando voltamos de Sao Paulo, vivemos uma experiencia "nao muito boa" digamos assim. Porem e' uma experiencia que muitos brasileiros vivem todos os dias, nao se incomodam, nao se assustam e nem questionam. Arrisco dizer que nao questionam porque e' isso que tem, entao esta' bom, melhor do que nada.

Quarta passada quando chegamos de Sao Paulo, o Nicolas estava com uma tosse seca, super cansado, incomodado e tinha tido crise alergica nos dias anteriores (na segunda fraca e na terca mais forte).

Como durante o dia ele nao melhorou e comecou a sentir dificuldade em respirar, fui para a emergencia de um hospital infancil publico de referencia aqui em Curitiba. Pelas minhas pesquisas antes de vir ele e' o hospital mais proximo de casa.

Chegamos la' e entramos na primeira porta, estava frio, garoando e eu nao sabia para onde ir. Entrei, peguei a senha e sentei. Segundos depois nos chamaram:
- RG e carteirinha do convenio, por favor.

EstavaMOS no lugar errado, claro. A moca me indicou onde era a entrada para o atendimento pelo SUS. Na porta havia um cartaz dizendo que so' atenderiam quem viesse encaminhado pela Unidade de Saude, nem pensei em nada caso nao nos atendessemos, entrei e fiquei perdida.

Um caos. Nao sabia para onde ir, com quem falar, tinha duas pessoas gritando nomes de criancas, pais encostados em uma parede que pareciam formar uma fila mas nao era, so' descobri depois.

Fui ate' o balcao na cara e na coragem, correndo o risco de ouvir uns gritos que eu estava furando a fila, falei para a moca o que o Nicolas estava sentindo, ela disse que so' atendiam com encaminhamento da Unidade de Saude mas que iam abrir uma excessao HOJE, pediu nossos documentos e nos disse para aguardar.

O hospital estava cheio, muito cheio, com muitos bebes. Uma meia hora depois nos chamaram para fazer o cadastro, a moca me pediu o cartao do SUS, que nao temos e disse para providenciar em uma Unidade de Saude. Entao eu perguntei se ela sabia qual a Unidade de Saude mais proxima da minha residencia (ja' que eu havia passado o endereco) e ela disse que nao sabia, eu que tinha que procurar.

Sentamos novamente e depois de mais meia hora fomos chamados. Uma enfermeira fez uma triagem para saber quao urgente era nosso caso, mediu a temperatura, os batimentos cardiacos e disse que se caso ele ficasse com os labios ou as pontas dos dedos roxos era para eu ir imediatamente falar com ela. Terminou dizendo que naquele dia o hospital estava muito cheio e que o tempo de espera era de 2h a 3h. 

E nos esperamos, no frio, a porta estava aberta e entrava um vento gelado terrivel. Nao parava de chegar pais com criancas no colo. O Nicolas cansadao, ele era uma das poucas criancas grande naquela sala de espera.

Tinha hora que o barulho era ensurdecedor, uma mistura de choro, burburrinho de conversa, as pessoas chamando para o atendimento, o barulho que vinha de fora. Acho mesmo que eu estava muito cansada e talvez tudo tenha tomado uma proporcao muito maior do que foi.

Passado duas horas e meia chamaram o nome do Nicolas e la' fomos nos. Uma mocinha (inha inha mesmo) nos atendeu, perguntou o que estava acontecendo, ela foi digitando no computador, depois pediu para ele sentar em uma maca, ouviu peito, pulmao, checou atras da orelha, verificou olhos e pontas das maos. Em seguida pediu para ele deitar, aperta aqui, ali e acola'. Senta de novo e ela pediu para ele abrir a boca ***nesse momento foi surreal*** ela sacou do bolso do avental seu super celular "Aialgumacoisa" acendeu a luz e verificou a garganta dele. 

Nao, nao tinha nenhuma daquelas luzinhas de mao que deveria ter em qualquer hospital.

Ela, entao, pediu para o Nicolas voltar para o meu colo, so' tinha uma cadeira e disse que o pulmao dele estava limpo e que ia chamar a doutora. {{{{Ela era residente!}}}.

A doutora chegou, tao nova quanto a primeira mas pelo visto ja' tem um olhar mais apurado, pois so' de olhar para o Nicolas percebeu que ele nao estava respirando direito. Pediu para ele sentar na maca de novo e refez o exame clinico, no momento que ela colocou o estetoscopio no peito dele ja' falou: "Tem chiado aqui sim".

Chamou a estudante e pediu para ela escutar de novo. Eu havia comentado que ele tinha dermatite atopica e entao ela comecou: "Mae a partir de agora voce tem que saber que seu filho tem dermatite atopica e asma/ bronquite que e' a mesma coisa."

Receitou inalacao com remedio (a bombinha dos asmaticos), um xarope para a tosse seca e orientou que qualquer coisa voltar. Enquanto ela digitava o procedimento que seria feito (inalacao) me senti em um campeonato de surf dos filmes. 
- Cara tu vai ficar bom logo ta'?
- Carinha tu e' muito grande para tua idade.

Voltamos para a sala de espera para esperar a enfermeira nos chamar para as inalacoes e assim foram realizadas tres, a medica chamou novamente, o pulmao ja' estava mais "limpo" aberto e fomos embora para casa.

Enquanto esperavamos entre uma inalacao e outra, um bebe mexeu com o Nicolas e a mae puxou papo, perguntou o que ele tinha, eu comentei e ela disse vai tomar XXXX e fazer tal coisa. Ou seja procedimento padrao pelo visto. O bebe tinha um ano e pouco e passou por isso com seis meses.

Voltamos para casa, naquela noite fria, com uma receita para um tratamento de cinco dias, um diagnostico de uma doenca para vida e com a certeza que o medicos estrangeiros sao mais do que bem-vindos mesmo na cidade com um dos melhores IDHM do pais.

* Na hora que consegui deitar so' lembrava das pessoas que moram em Londres e reclamam do NHS (sistema de saude publico de la'), como ja' disse, so' reclama do NHS quem sempre usou plano de saude privado aqui no Brasil. Porque se formos comparar NHS com SUS, desculpa amigos, mas nao tem nem comparacao. 

A gente so' percebe o tamanho do buraco quando esta' dentro dele.

Muitas emocoes nesse recomeco de vida em Terra Brasilis.



* So' para titulo de informacao: se voce tiver uma receita medica, o governo distribui gratuitamente remedio para asma, informe-se com seu medico. Retirei na farmacia a bombinha e comprei esse espacador.

O governo tambem disponibilidade gratuitamente remedio para pressao alta e diabetes.

Um comentário:

  1. Nossa que paúra Gra! :( Ainda bem que passou mesmo, e espero que não se repita mais!

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